quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

29. Fúnebre e latente universo

É um universo que se distancia. Aquele fluxo de tempo, a morte da esperança que já se tinha esgotado. O deslise de um temporal que deixa de trovejar por gotas e pingos reprimidos de uma água que nunca será deleitada. Uma flor que nunca se abriria, um pensamento morto a facadas ainda dentro daquela mente fosca. Parto; eu parto pr'um mundo que não mais se deixa existir; mesmo instante em que n'outro me vejo latente.

Uma faísca que nem cinzas deixa, um devaneio reclinado na cadeira giratória do silencioso aconchego do escritório. Um medo cristalizado na alma. Paro, fico, não penso, respiro, vou. Vou pra onde ninguém fica, paro em cantos nunca respirados, nunca beijados. Sinto o lisonjeio dos dedos sobre minha barba crescida e me vem o cheiro do mato esverdeado, da planície orvalhada nas primeiras horas do dia, ainda sem sol.

Acordes me assopram aos ouvidos a verdade que já era minha. Os universos que num instante se tocam, noutro somem de vista. Aperto os olhos no fim do sentido, em vão, como num toque mágico, deixa de existir, deixa a vida num tossido, num escarro daquela última doce ilusão.

Emperfumo-me com a fumaça de meu queimado e gorduroso coração mole, posso sentir, quase, seu gosto invadir minha mente. Me morro e renasço meu outro, vivo, eu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário