segunda-feira, 18 de maio de 2015

49. Dança de flores mortas

Na areia soprada pelo vento morrem as flores que despencam das árvores imundas da fuligem que sobra do sol que esturrica as folhas. O orvalho é a primeira gota de vida que torna o dia suportável. Se as manhãs brotassem com sol a pino o suor que me escorreria das costeletas traria a vida à beira da insuportabilidade. Uma ressaca, o mar invadindo o asfalto, doentes num hospital inóspito. Uma vida sem regras, sem razão, sem cores - são os impulsos nervosos não domesticados, doses de serotonina bloqueadas, racionadas numa economia de guerra.

O atrevimento de um olhar presente na sacralidade de um corpo infiel, de um abrigo entre as asas de um beija-flor solitário. A luz ecoa no passear das pétalas até que cai no chão e seca até despedaçar, até desaparecer, até recomeçar e se esquecer que um dia existiu. Tudo tão efêmero, tão sem essência, tão só de essência. Uma vida sem alma, um vento que só se toca até um cabelo qualquer que por acaso ali se encontrava solto.

Quantas são as respostas antes de que se faça a pergunta de se calar a mente? De nada adiantam palmas, bradares, desesperos, sorrisos, hinos, odes e batuques, se nenhuma calcinha é lançada ao palco.

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