Sobre a mesa uma singela caixa de madeira escura, de bom gosto, rústica; uma tampa impedia que seu conteúdo fosse exposto.
Carlos ia ao apagador da lâmpada da sala para finalizar seu cansativo dia de serviço. Antes que tocasse no plástico olhou para a caixa. Fitou-a.
Aquela caixa fez Carlos meditar. Sua mente procurava, num espanto, a resposta de uma pergunta que ainda nem tinha surgido. A caixa enraizou a mente de Carlos, que não pensava. Apenas olhava, com a mente calada, aquela bem carpintada caixa pelas mãos calejadas de um artesão qualquer.
Um objeto corriqueiro. Uma caixa de madeira. Dentro dela, uma incógnita.
Ninguém viu a caixa chegar, mas todos a viram ali. A caixa tinha um brilho perobado, um espanto em si. Pasmo era Carlos naqueles dois instantes em que fitou a caixa.
Não foram cinco segundos de fito.
- O que será que há nessa caixa? - passou a pronunciar, a voz na cabeça de Carlos.
- Que caixa elegante! - exclamou em silêncio.
Carlos iniciou seu sofrimento.
Sem mover um músculo Carlos buscou dentro de si a resposta que lhe torturava.
- Não deve ser nada! - pensou aflito.
- Mas pode ser um presente que me mandaram. Talvez uma coleção de charutos. Ou um perfume...
- Não! Talvez seja o pagamento da promessa que me fez aquele senhor de olhos raivosos quando disse que me mataria quando lhe pus na cadeia. Pode ser uma bomba!!
- Devo abrir? - sem mover os lábios se perguntou.
Carlos não sabia de onde teria surgido aquela caixa, era uma caixa, deveras, misteriosa.
Observando profundamente aquela cena em apenas duas dimensões, tentou medir com os olhos o tamanho da caixa, aproximava-se de 25 centímetros, em um cubo aparentemente quase perfeito. Tentou imaginar seu peso, sem tocá-la, supôs que entre cinquenta gramas e meio quilo. Assustado pensou em correr o máximo possível. Tentou imaginar quem teria colocado lá aquela tão meiga e singela caixa, nada. Sua fome lhe fez querer que dentro da caixa houvesse algum bem temperado sanduíche de frango.
- Será que é um animal, daqueles que vendem clandestinos, pelos correios? Daqueles que não se sabe se chegam vivos ou mortos?
- Essa tampa, pode ser aberta? Se eu abri-la, o que sairá de dentro?
Aflito, Carlos notou uma pequena inscrição numa chapinha metálica no canto inferior direito da caixa. Dizia assim:
"Dentro desta caixa tem dez mil reais."
Carlos imediatamente se alegrou, num instante de extrema euforia retrucou, silencioso, em pensamento:
- Por que teria dinheiro dentro dessa caixa?
- Quem mandaria uma caixa para alguém escrito que dentro dela tem uma bomba? E se a inscrição for apenas para me fazer abrir mais rápido?
Pensou ainda:
- E se alguém já pegou esse dinheiro? A plaqueta, que antes dizia a verdade, passou a ser mentirosa?
- Qual a confiabilidade de uma plaquetinha metálica?
Passou, Carlos, a imaginar o que gostaria que ali houvesse.
- Talvez uma gravata borboleta.
- Um doce de abóbora.
- Ferramentas de jardinagem.
- Bisnagas de tinta.
- Nada!
Talvez não houvesse nada ali.
Não sabia Carlos o que havia na caixa. Isso o intrigava. Se fosse ele um outro qualquer já teria gasto o dinheiro, antes mesmo de vê-lo. Mas Carlos não - esse era um sujeito firme.
O telefone tocava sem parar, incessantemente, em máximo volume. Número privado. Carlos acordou.
- Alô! Quem fala? - disse Carlos.
- Boa noite, aqui quem fala é Beatriz, por acaso deixei... - xxxxxxx - tu, tu, tu, tu
Novamente o escandaloso volta a gritar.
- Alô!
- Boa noite, deixei uma caixa aí no seu escritório? - disse a voz enrugada de uma idosa.
- Boa noite, deixou sim. - Carlos se acalmava.
- Então, livre-se dela. Está lacrada, não consegui abrir. Encontrei no sótão da minha antiga casa, devia ser do meu falecido marido, aquele ali adorava guardar velharias.
- Mas o que tem dentro da caixa? - perguntou Carlos.
- Nada de mais, deve ter apenas velharias. - disse a velha.
Carlos engoliu seco.
Em sua cabeça uma dúvida tomou domicílio. Carlos colocou a caixa em sua estante e até hoje ela lhe machuca. Colocou em local visível para que não se esqueça.
Hoje sim, Carlos é livre.
Quando diariamente se pergunta, ele mesmo responde.
- O que importa não é o conteúdo da caixa, mas o que faço com a informação que eu não tenho. Posso jogar fora por achar que não tem nada de valor. Talvez correr por medo de que exploda. Posso abri-la para ver o que tem dentro. Posso deixar que ela me abra, e veja o que tenho dentro de mim. O que vale é a forma que trato a informação que eu não tenho. Não me moldo pelas incertezas, não me deixo levar pela fome do sanduíche ou pelo desejo do dinheiro. Mas não me afasto pelo medo da bomba.
Carlos não abriu a caixa, mas se abriu pra ela; sua mente saiu de dentro dela.
- Talvez uma gravata borboleta.
- Um doce de abóbora.
- Ferramentas de jardinagem.
- Bisnagas de tinta.
- Nada!
Talvez não houvesse nada ali.
Não sabia Carlos o que havia na caixa. Isso o intrigava. Se fosse ele um outro qualquer já teria gasto o dinheiro, antes mesmo de vê-lo. Mas Carlos não - esse era um sujeito firme.
O telefone tocava sem parar, incessantemente, em máximo volume. Número privado. Carlos acordou.
- Alô! Quem fala? - disse Carlos.
- Boa noite, aqui quem fala é Beatriz, por acaso deixei... - xxxxxxx - tu, tu, tu, tu
Novamente o escandaloso volta a gritar.
- Alô!
- Boa noite, deixei uma caixa aí no seu escritório? - disse a voz enrugada de uma idosa.
- Boa noite, deixou sim. - Carlos se acalmava.
- Então, livre-se dela. Está lacrada, não consegui abrir. Encontrei no sótão da minha antiga casa, devia ser do meu falecido marido, aquele ali adorava guardar velharias.
- Mas o que tem dentro da caixa? - perguntou Carlos.
- Nada de mais, deve ter apenas velharias. - disse a velha.
Carlos engoliu seco.
Em sua cabeça uma dúvida tomou domicílio. Carlos colocou a caixa em sua estante e até hoje ela lhe machuca. Colocou em local visível para que não se esqueça.
Hoje sim, Carlos é livre.
Quando diariamente se pergunta, ele mesmo responde.
- O que importa não é o conteúdo da caixa, mas o que faço com a informação que eu não tenho. Posso jogar fora por achar que não tem nada de valor. Talvez correr por medo de que exploda. Posso abri-la para ver o que tem dentro. Posso deixar que ela me abra, e veja o que tenho dentro de mim. O que vale é a forma que trato a informação que eu não tenho. Não me moldo pelas incertezas, não me deixo levar pela fome do sanduíche ou pelo desejo do dinheiro. Mas não me afasto pelo medo da bomba.
Carlos não abriu a caixa, mas se abriu pra ela; sua mente saiu de dentro dela.
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