terça-feira, 2 de setembro de 2014

39. O guardanapo

Sávio era um sujeito ordinário. Seus olhos eram castanhos e seu olhar turvo, seus cabelos não se moviam de tão curtos, apesar de lisos. Sávio era um sujeito de seus trinta e poucos anos e vivia emburrado, tentava sorrir, mas era um cara chato.

Um dia qualquer no interior de uma semana de setembro ele resolveu, ao voltar de seu monótono e estressante serviço passar em uma daquelas lanchonetes especializadas em cachorro-quente.

- Número seiscentos e quarenta e dois!!

Era o seu lanche. Parado, sozinho, comeu todo o cachorro-quente sem se fitar no que fazia, de lá saiu cambaleando e tropeçando em tudo - até que voltou e, por um instante, observou a mesa em que sentara.

O lanche era servido sobre um guardanapo de papel, daqueles reconfortantes, que absorvem toda a gordura que impregna nos cantos da boca - um guardanapo realmente prazeroso.

Sobre a mesa um "pega-guardanapo", daqueles que contém diversos papéis com duas abas dobradas na vertical, daqueles que não enxugam nada.

Caso é que Sávio, para economizar o bom, belo e prazeroso guardanapo que viera com seu lanche, apenas usou daqueles terríveis de sobre a mesa. Quando terminou de comer sua quintessência estava seca, limpa e teve que ser amassada e descartada (até porque, ninguém leva para casa um guardanapo não usado).

Neste súbito instante Sávio sofreu o breve AVC de um insight:

- Por que economizei um guardanapo que nem usei? Por que meu celular continua com esse plástico horrível de quando comprei?

O prazer é aprazível. Quando se deixa a melhor parte para o final, pode ser que você só coma a massa da coxinha e morra com o frango na mão.


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