segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

43. Cena

À minha frente um papel digital em branco, as letras vão surgindo, as palavras se formam como num compasso. O deslinde de uma emoção que se lança e despedaça defronte ao meu humilde desktop são as imagens que despencam de minha mente, se escorrendo, escorregando, se derrapando na paisagem de uma tela de tinta à óleo.

As sobras de dentro de mim são tão profundas que se vê claramente a carne viva, o sangue que goteja é o sinal de minha vida que ainda lateja. Meus passos são moldados nesse tempo que se cativa e me conquista com suas belas frases de efeito, em tom de brincadeira, mas que denotam um desespero gritante, ensurdecedor, enfurecido do mais puro e sofrível terror.

Quantas são as vestes que enfraquecem minhas ilusões? Qual é a realidade que me convém? Mas e depois? E quando o véu da noiva cair? E quando as cortinas se abrirem?

Serei eu sozinho no palco com um refletor sobre minha cuca. Minhas palavras deverão soar por todo o salão. Todos em silêncio hão de me ouvir, esperam gargalhar de minhas palavras falsas. Quem é esse que quer tomar meu lugar?

Parado, de pé, fito a plateia que me assiste morrer, e espera com isso sufocar de risos.

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