segunda-feira, 13 de julho de 2015

52. Biscoito da sorte

Do mais alto topo do mastro central da embarcação que me levava ao porto de Yokohama, uma cidade bastante comercial do Japão, que fica na província de Kanagawa (região metropolitana de Tókio) avistei, ao longe, o que parecia um estandarte no meio do oceano, como uma grande pedra onde caberiam dezessete navios cargueiros. Aproximando notei que iniciava um movimento, como se tivesse ganhado vida, só então percebi que não se tratava de rocha, coral ou gelo, mas uma enorme e nunca vista baleia gigante azul. Deixei cair o mel de abelha que adoçava meu entardecer e os besouros habitantes e infestados na madeira podre rapidamente empretearam o alambrado circular daquele mastro de luneta. Minhas pernas se estremeceram quando percebi que não seria possível frear o barco antes de adentrarmos naquela já abrindo enorme caverna bucal daquele gigante mamífero aquático.

Num instante tudo se aquietou, como se o tempo desacelerasse e lentamente cada segundo se compassava com o batuque do meu coração, que eu já ouvia juntamente com o barulho do deslocamento de ar e água no meio do horizonte salgado d'água.

Lembrei-me dos meus momentos de criança, quando sonhava ser detetive, usar uma lupa, um sobretudo e um cachimbo enquanto coletaria as gotículas do sangue da vítima daquele assassinato que eu, e só eu, iria desvendar. Mas não era possível, dentro do pote de biscoitos da sorte sobre a geladeira tirei aquele que me destinava ao mastro de luneta, desde então minha vida mudou, inúmeras riquezas vieram a mim, mas naquele dia elas seriam vãs, inúteis. Nem mesmo uma flecha no centro dos olhos, ou mil tiros de canhão seriam suficientes para impedir a morte iminente. Nem todas as toneladas de ouro do convés nem toda a prataria me salvariam naquele dia.

Mas tudo passou. Hoje não estou mais vivo, tudo foi engolido, triturado e digerido. Mas as partículas do meu corpo, a essência da embarcação e cada gota daquele ouro perdido serão refeitos e renascerão na praia, no caule da mais nova flor que se banhará no orvalho que se formará na manhã que há de vir.

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