Felipe era um garoto ordinário, à flor da juventude. Na manhã daquele dia ele ouvia em seus headphones o mais novo álbum de Milton Nascimento, que acabara de baixar em um site qualquer de discografia pirata para download. Mal sabia ele que esse seria o dia mais importante de sua vida - iniciado ao som de 'Nada será como antes' - "Num domingo qualquer, qualquer hora, ventania em qualquer direção..."
Felipe tomou seu café da manhã como fazia diariamente, nada incomum. Apenas alguns biscoitos de queijo e um copo duplo de café com leite quente. Ninguém planeja a própria morte na hora do café da manhã.
O telefone toca, Juliana do outro lado da linha ainda está nervosa por causa da discussão da noite anterior, que se iniciou quando Felipe, despretenciosamente, comentou que teria ido ao "pub" com Marcelo e tomaram cerveja ao ponto de voltarem meio tortos para casa.
Juliana precisava ligar, seu celular tinha ficado na casa de Felipe:
- Felipe [em tom rude], você encontrou meu celular?
- Achei!! Achei!! Depois venha buscar.
Juliana sentiu naquelas palavras um gelo, um tom ignorado, como de quem não mais se importa com um relacionamento. "Bem que ele podia trazer pra mim, aproveitaríamos para fazer as pazes" - pensou.
- Seu pai trabalha perto da minha casa, peça para ele me trazer o telefone então. - fala Juliana.
- O meu pai? Ele não trabalha mais aí, foi demitido há quase um mês já, hoje ele é revendedor autônomo. E por sinal está lucrando muito mais.
Um silêncio estremece o outro lado da linha. Felipe fica agitado e aflito com o fato de Juliana não desligar o telefone e nem dizer nada. Juliana não estava bem mesmo.
- Jú, você está aí? Responda! Não faz isso comigo não velho...
- Mas você não está me chamando para ir pra sua casa, só quer que eu vá buscar o celular. Está? - indaga Juliana.
- Se eu tô chamando? É óbvio velho!
Felipe se contorce todo em tics nervosos até que esbarra no copo ao lado da mesa, que cai e se espatifa em milhares de pedaços, uma lasca de vidro quica e penetra em seu braço direito, quando num estrondo ele grita:
- Meu braço velho!!! Cortei o braço, está sangrando muito. Vou ter que dar pontos! Vai doer pra caralho!
Juliana do outro lado estava palpitante, temerosa de se tratar de uma ferida considerável. Desliga o telefone e corre direto para sua motocicleta parada na porta de casa. Coloca o capacete na cabeça sem nem sequer afivelar a fita sob o queixo e sai em desabalada carreira ao encontro de seu amado. Chegando na casa dele, apenas quatro quadras abaixo da sua, trava os dentes e olha com a mais pura fúria para Felipe.
- Felipe!! Precisava daquele escândalo todo por causa dessa feridinha idiota? Cresce seu muleque! Vai lavar esse corte, não precisa de pontos. Você me deu um susto, idiota!
Na TV do quarto passava uma entrevista com o pintor que se destacou no ano corrente com suas telas infestas de cores vivas, numa demonstração de alegria intensa. O som da televisão era baixo, mas era a única coisa que se ouvia naquela casa escura enquanto Juliana e Felipe se sentaram no chão do quarto de dormir e ficaram olhando um nos olhos do outro.
- Romero Britto, como você começou a se interessar por pintura? Você sempre quis ser pintor?
- Bem, desde que me entendo por gente tenho expressado a partir de interações visuais tudo o que tenho dentro de mim. Minha cabeça não é tão fácil de compreender, então a pintura, para mim, é mais expressiva do que as palavras. Um dia numa visita a Búzios apresentei minha arte a um andarilho que me olhou nos olhos e começou a lacrimejar. Ele disse que minha pintura teria sido a primeira coisa bonita que ele tinha visto em muitos anos, e lamentou por não ter dinheiro para comprá-la. Então eu abri minha mochila, retirei um pedaço de tecido de tela, estendi no chão, abri os materiais de pintura e desenvolvi um trabalho especial para aquele senhor, que me abraçou e banhou o cobertor em que se deitava com as lágrimas efusivas de seu pranto.
- Brigado! Muito obrigado mesmo ao senhor. Disse o senhor quando tocou as bordas ainda molhadas da tela. Esse foi o dia mais emocionante da minha vida. Disse o artista.
O som da TV não ofuscava os olhares entrelaçados do casal. Felipe tinha dezesseis anos apenas, Juliana dezoito. Mas não conseguiram se controlar, nem a discussão nem o braço cortado, nada foi suficiente para cessar o desejo de ambos. Se abraçaram e se beijaram com brutalidade, se lançaram sobre a cama que contava com uma arrumação impecável. Só no dia seguinte é que se dariam conta de todo o ocorrido.
- Minha vida... - dizia Juliana ainda acordada, no meio da noite - Minha vida está destruída. Tudo acabou. Só o que tenho é você!
Continuava a garota:
- Eu não sei nem onde eu tô velho. Minha casa não é lugar pra mim, depois que todos morreram cada som, cada imagem que vejo são lembranças que tenho da minha família. Às vezes penso que eu deveria estar naquele carro...
A família de Juliana estava toda reunida numa van que os levaria até a praia, mas uma chuva atrapalhou a viagem. O carro se desgovernou sozinho e arrebentou-se no alambrado que separava a estrada do penhasco em que todos caíram. Só restou Juliana, com mais de um milhão em dinheiro e um patrimônio invejável. Mas mesmo assim, nada disso supria o vazio da perda que sofrera. A viagem era curta, faltavam apenas cinco quilômetros para a chegada de todos, nada disso precisaria acontecer se o carro tivesse sido revisado. Mas nada adianta mais, nenhum segundo nunca voltou atrás.
- Pega um incenso pra mim? - disse Juliana, buscando completar seu prazer com o aroma daquela fumaça de paz.
- Está na gaveta atrás de você. Acenda e durma comigo, só preciso de mais umas duas horas de sono.
Não sabia Felipe que Bruno, seu irmão, teria deixado naquela gaveta a arma que acabara de adquirir para prática de tiro esportivo. Naquele estado de consciência depressiva, qualquer contato com uma arma poderia ser o derradeiro. Juliana abriu a gaveta, pegou a arma e numa fração de segundos se lembrou de todos os familiares mortos, "Clara Pimenta, Antonela, Jarbas, o meu pai, Katrina".
Depois de se lembrar de cada integrante morto de sua família, sem nem verificar se na arma havia alguma munição. Juliana segurou o revólver na própria têmpora e deu um tiro na cabeça.
Após o estrondo, Felipe Smith acordou. Ao presenciar a cena de sua namorada morta com um tiro na cabeça disparado dentro do seu próprio quarto. Alucionou-se, buscou na arma o próximo disparo, mas aquele era o último cartucho de munição. Com os olhos embanhados e as mãos sujas do sangue de sua amada correu até a caixa de remédios e ingeriu todos que pôde com uma lata de Red Bull. Mas o samu chegou muito rápido, ele estava fora de si, se debatia. Foi preso à maca e os procedimentos foram tomados. No final daquela madrugada, com o alvorecer já trazendo seu cheiro, apenas o que sentia Felipe era o gosto de sangue e lágrimas e o medo de voltar à vida.
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