segunda-feira, 30 de outubro de 2017

74. Amigo

Duas metades são geradoras do antigo todo que se dissolve com o redesmontar do tempo. Um amigo que se vai é um pedaço da gente que se destrói. Quero crer que num universo tão infinito de finitudes possamos não ser o sofrimento de cada perda a cada passo, a cada degrau do caminho. Meus olhos já se banharam, meus dentes já se cruzaram, tenho um zigomático maior que já se franziu pra muita gente. Prevejo o desespero da solidão, de não ter pra quem ligar ao ouvir Glummy Sunday, de não ter como chorar, de não fazer chover sobre mim a água quente que me rubra a pele em carne viva.

Não me incomoda o tocar dos sinos da igreja, não me fere a autoridade despreparada e desenfreada, não me desabona o perecer, nem a minha própria morte que a cada dia chega mais próximo de brindar. O que me incomoda é o medo de ficar, de sofrer as perdas de cada dia, de sangrar cada vez mais com os amores que perdi, com os amigos que deixei, com as histórias que se foram.

Não, não tenho acalento. Minha fé se foi há muito tempo. Hoje não consigo me tranquilizar com a força da conveniência, não sei me iludir, não posso mais manter minha felicidade ignorante.

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